Profissões manuais vs tecnologia: quem vai ganhar mais na próxima década? Muitos trabalhadores não sabem, mas o debate sobre o futuro das profissões está a mudar rapidamente com o avanço da inteligência artificial (IA) e a escassez de mão de obra em várias áreas técnicas. Nos últimos meses, ganhou destaque a ideia de que profissões manuais especializadas poderão valorizar-se significativamente na próxima década, impulsionadas tanto pela dificuldade de recrutamento como pela menor exposição à automação. Na prática, esta tendência não significa o declínio das profissões tecnológicas, mas sim uma redefinição do valor relativo entre diferentes tipos de trabalho, num mercado cada vez mais influenciado pela tecnologia e pela oferta de competências. De onde surge a ideia de que um canalizador pode ganhar mais que um programador A afirmação ganhou visibilidade após a Web Summit de 2025, quando Daniela Braga, CEO da Defined.ai, defendeu que, na próxima década, profissões manuais poderão superar o trabalho intelectual em termos de remuneração. Esta posição surgiu num debate com outros líderes tecnológicos, onde foram apresentadas perspetivas distintas sobre o impacto da IA no emprego. Enquanto alguns defendem que a tecnologia reduzirá a necessidade de requalificação, outros alertam para uma possível desvalorização de funções intelectuais e uma maior procura por atividades práticas difíceis de automatizar. Escassez de mão de obra está a impulsionar profissões técnicas A valorização das profissões manuais não é apenas teórica. Na Europa, setores como a construção enfrentam uma escassez persistente de trabalhadores qualificados. Profissões como canalizadores, eletricistas e técnicos de AVAC surgem regularmente entre as mais difíceis de recrutar, incluindo em Portugal, onde o setor reporta limitações estruturais na disponibilidade de mão de obra. Esta falta de profissionais contribui para: aumento dos custos de construção; atrasos na execução de obras; maior pressão sobre o preço final das habitações; dificuldade em responder à procura existente. Em alguns casos, dados do mercado indicam que serviços técnicos especializados já atingem valores horários elevados, refletindo diretamente esta escassez. Tecnologia continua a ser central no futuro do trabalho Apesar da valorização das profissões manuais, as funções ligadas à tecnologia continuam entre as que mais deverão crescer até ao final da década. Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Económico Mundial, áreas como: análise de dados; inteligência artificial; desenvolvimento de software; logística e automação; deverão registar uma procura crescente até 2030. O que está a mudar não é a relevância da tecnologia, mas sim a forma como esta redistribui valor entre profissões, automatizando tarefas repetitivas e aumentando a importância de competências humanas e técnicas específicas. Nem todos os trabalhadores serão afetados da mesma forma O impacto da IA no emprego não será uniforme. Algumas funções poderão ser parcialmente automatizadas, enquanto outras serão transformadas ou até reforçadas. Entre os principais efeitos esperados estão: redução de tarefas repetitivas e administrativas; transformação de funções técnicas para modelos assistidos por IA; maior procura por competências práticas e operacionais; necessidade de adaptação e desenvolvimento de novas capacidades. Em muitos casos, o trabalho não desaparece, mas muda de natureza, exigindo maior capacidade de adaptação por parte dos profissionais. Formação técnica e profissional ganha relevância O aumento da procura por profissões manuais tem vindo a refletir-se também na formação técnica. Instituições de formação reportam maior interesse em cursos ligados a eletricidade, canalização e outras áreas práticas, tanto por jovens como por profissionais já qualificados que procuram complementar competências. Esta tendência revela uma mudança gradual na perceção do ensino profissional, tradicionalmente visto como uma alternativa ao ensino superior, mas que pode oferecer oportunidades relevantes em termos de empregabilidade e rendimento. Impacto direto no mercado da habitação Em Portugal, a escassez de profissionais técnicos tem consequências diretas no setor imobiliário. A dificuldade em recrutar mão de obra qualificada contribui para limitar a capacidade de construção e reabilitação, num contexto em que a procura por habitação continua elevada. Este fator junta-se a outros elementos, como taxas de juro e políticas públicas, influenciando o preço final das casas e o ritmo de desenvolvimento do mercado. O futuro do trabalho será mais equilibrado entre teoria e prática Apesar do debate, não existe consenso sobre uma substituição total entre profissões intelectuais e manuais. Especialistas indicam que trabalhadores com ensino superior continuam, em média, a apresentar melhores níveis de empregabilidade, embora a massificação do ensino possa exercer pressão sobre salários em algumas áreas. Ao mesmo tempo, profissões técnicas especializadas tendem a beneficiar da escassez de oferta, criando um equilíbrio mais próximo entre diferentes percursos profissionais. A valorização das competências práticas pode marcar a próxima década A evolução do mercado de trabalho sugere que o futuro passará por uma combinação entre competências tecnológicas e capacidades práticas. Entre os principais fatores a acompanhar estão: a adoção crescente de inteligência artificial; a capacidade de adaptação dos trabalhadores; a disponibilidade de mão de obra qualificada; a valorização de profissões difíceis de automatizar. Neste contexto, a ideia de que profissões manuais podem ganhar maior relevância não substitui a importância da tecnologia, mas complementa-a. Para trabalhadores e famílias, compreender estas dinâmicas pode ser essencial para tomar decisões informadas sobre educação, carreira e planeamento financeiro nos próximos anos. A pensar comprar casa este ano? Antes de avançar com um crédito habitação, é essencial perceber qual a sua taxa de esforço, capacidade de financiamento e impacto das condições económicas no mercado imobiliário. 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